A violência é um nódulo na raiz
da sociedade. Nos estágios iniciais da evolução humana, quando já prevalecia a
lei do mais forte, a violência instalou-se nas primeiras formações sociais como
um mal necessário, como a bactéria que se aloja –formando nódulos– na raiz de
uma leguminosa e que, embora seja um corpo estranho à planta, fornece a ela
nutrientes essenciais ao seu desenvolvimento.
Esse mutualismo serve de ilustração ao
desenvolvimento do homem: os agrupamentos pré-históricos mais violentos, cuja
raiz já estava tomada pela bactéria impetuosa, tinham maiores chances de vencer
outros grupos humanos na competição por recursos essenciais à sobrevivência, como
comida e espaço. A evolução da espécie humana também foi regida pela Lei da
Seleção Natural, formulada por Darwin no século XIX, a qual estabelece que
apenas os seres vivos mais fortes, melhor adaptados ao meio em que vivem, conseguem
sobreviver.
A natureza é violenta por si só. No
entanto, ela não se dá conta disso, não cria normas morais para limitar sua
própria violência, diferentemente do ser humano. Por isso, a evolução humana
tomou variado rumo: chega um momento em que as sociedades começam a crescer e a
violência, antes uma arma contra grupos externos, passa a se manifestar entre
indivíduos da mesma comunidade. Com isso, o homem percebe a necessidade de
criar regras que punam os atos violentos.
A planta cresce, mas a bactéria
permanece em sua raiz. A sociedade cresce, mas a violência conserva-se latente
em sua base. Surge, então, o “mal-estar na civilização”, definido por Freud
como a incompatibilidade entre a natureza agressiva do homem e a convivência
social. O embate entre esses dois aspectos humanos coloca a sociedade
civilizada à beira de um precipício, na iminência de se desintegrar. Esse
mal-estar constante e irremediável é decorrente do fato de que a lei, embora
sirva para impedir os excessos grosseiros da violência, não é capaz de
controlar as manifestações mais cautelosas e refinadas da agressividade humana.
A crueldade mais torpe pode esconder-se por trás da mais doce voz e de palavras
bem arquitetadas.
A violência, portanto, não decorre da
ausência da lei. Na verdade, aquela é indiferente a essa, pois algumas manifestações
violentas, como as já citadas, ocorrem independentemente das regras morais.
Assim como a planta utiliza a bactéria como um aparelho para obter benefícios,
a violência também pode ser considerada um instrumento com o qual o ser humano oprime
seus semelhantes e se auto-favorece.
Mauro César Barbosa Júnior
RM 80968