quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Violência instrumental


       A violência é um nódulo na raiz da sociedade. Nos estágios iniciais da evolução humana, quando já prevalecia a lei do mais forte, a violência instalou-se nas primeiras formações sociais como um mal necessário, como a bactéria que se aloja –formando nódulos– na raiz de uma leguminosa e que, embora seja um corpo estranho à planta, fornece a ela nutrientes essenciais ao seu desenvolvimento.
       Esse mutualismo serve de ilustração ao desenvolvimento do homem: os agrupamentos pré-históricos mais violentos, cuja raiz já estava tomada pela bactéria impetuosa, tinham maiores chances de vencer outros grupos humanos na competição por recursos essenciais à sobrevivência, como comida e espaço. A evolução da espécie humana também foi regida pela Lei da Seleção Natural, formulada por Darwin no século XIX, a qual estabelece que apenas os seres vivos mais fortes, melhor adaptados ao meio em que vivem, conseguem sobreviver.
       A natureza é violenta por si só. No entanto, ela não se dá conta disso, não cria normas morais para limitar sua própria violência, diferentemente do ser humano. Por isso, a evolução humana tomou variado rumo: chega um momento em que as sociedades começam a crescer e a violência, antes uma arma contra grupos externos, passa a se manifestar entre indivíduos da mesma comunidade. Com isso, o homem percebe a necessidade de criar regras que punam os atos violentos.
       A planta cresce, mas a bactéria permanece em sua raiz. A sociedade cresce, mas a violência conserva-se latente em sua base. Surge, então, o “mal-estar na civilização”, definido por Freud como a incompatibilidade entre a natureza agressiva do homem e a convivência social. O embate entre esses dois aspectos humanos coloca a sociedade civilizada à beira de um precipício, na iminência de se desintegrar. Esse mal-estar constante e irremediável é decorrente do fato de que a lei, embora sirva para impedir os excessos grosseiros da violência, não é capaz de controlar as manifestações mais cautelosas e refinadas da agressividade humana. A crueldade mais torpe pode esconder-se por trás da mais doce voz e de palavras bem arquitetadas.
       A violência, portanto, não decorre da ausência da lei. Na verdade, aquela é indiferente a essa, pois algumas manifestações violentas, como as já citadas, ocorrem independentemente das regras morais. Assim como a planta utiliza a bactéria como um aparelho para obter benefícios, a violência também pode ser considerada um instrumento com o qual o ser humano oprime seus semelhantes e se auto-favorece.   

Mauro César Barbosa Júnior
RM 80968

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