Imagine que você e um grupo de
pessoas estão perdidos em uma região fria e montanhosa. O inverno pincelou de
branco a paisagem. Uma nevasca inicia-se. Vocês estão à procura de abrigo.
Inesperadamente, percebem que estão sobre a fina camada de gelo de um lago cujas
proporções são incalculáveis nesse momento. A camada começa a rachar e, se
vocês ficarem parados no mesmo lugar, morrerão afogados. Por isso, começam a
correr. Se pararem, afundam. Vocês não sabem o que os espera no outro lado do
lago, tampouco a direção correta a ser seguida. Só sabem que têm que correr.
Essa metáfora foi criada pelo filósofo e
escritor Ralph Waldo Emerson para descrever a sociedade capitalista de sua
época, os Estados Unidos do século XIX. O que Waldo nunca imaginaria é que,
depois de mais de cem anos, sua metáfora seria retomada por um dos maiores
sociólogos contemporâneos, o polonês Zygmunt Bauman, para fundamentar suas
teorias sobre a pós-modernidade, palavra primeiramente idealizada na década de
1980 pelo filósofo francês Jean-François Lyotard, que a relacionou ao
comportamento, já bastante comum nessa época, de encarar como uma ilusão a
ideia de o mundo poder ser explicado pelas narrativas longas da Idade Moderna –entre
elas, o Materialismo Histórico de Marx e o projeto Iluminista, com sua premissa
de que a razão instrumental garantiria o desenvolvimento humano.
A consciência pós-moderna, termo
empregado por Bauman, liquefez os sólidos valores da Modernidade,
transformando-os em conceitos líquidos, com definições arbitrárias sobre o que
é a moral. O senso comum defende que a finalidade suprema da vida é garantir a felicidade
a qualquer custo. E nessa busca incessante por felicidade individual, as
relações humanas se assemelharam ao consumo de bens materiais, adquirindo
aspectos descartáveis.
A única lei que sobreviveu à consciência
pós-moderna é a lei de mercado. Nessa perspectiva, não há mais por que duas
pessoas manterem qualquer tipo de relacionamento, seja uma amizade ou uma
relação amorosa, a não ser pelo motivo óbvio: que ele seja lucrativo para ambas
as partes. Você está percebendo que seu amigo, de certa forma, não lhe
acrescenta mais benefícios? Afaste-se dele. Seu cônjuge passou a ser um empecilho
à sua felicidade plena? Peça a separação.
Nunca houve tantos divórcios como há
atualmente. Perdemos a capacidade de nos sacrificar em prol de valores maiores,
como a família. Será mesmo que estamos mais satisfeitos vivendo como se o único
sentido da vida fosse a busca incessante por felicidade, às custas de as
relações humanas tornarem-se descartáveis? Não seria isso um retrocesso?
Mauro César Barbosa Júnior
RM 80968
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