quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

As relações humanas na pós-modernidade


       Imagine que você e um grupo de pessoas estão perdidos em uma região fria e montanhosa. O inverno pincelou de branco a paisagem. Uma nevasca inicia-se. Vocês estão à procura de abrigo. Inesperadamente, percebem que estão sobre a fina camada de gelo de um lago cujas proporções são incalculáveis nesse momento. A camada começa a rachar e, se vocês ficarem parados no mesmo lugar, morrerão afogados. Por isso, começam a correr. Se pararem, afundam. Vocês não sabem o que os espera no outro lado do lago, tampouco a direção correta a ser seguida. Só sabem que têm que correr.
       Essa metáfora foi criada pelo filósofo e escritor Ralph Waldo Emerson para descrever a sociedade capitalista de sua época, os Estados Unidos do século XIX. O que Waldo nunca imaginaria é que, depois de mais de cem anos, sua metáfora seria retomada por um dos maiores sociólogos contemporâneos, o polonês Zygmunt Bauman, para fundamentar suas teorias sobre a pós-modernidade, palavra primeiramente idealizada na década de 1980 pelo filósofo francês Jean-François Lyotard, que a relacionou ao comportamento, já bastante comum nessa época, de encarar como uma ilusão a ideia de o mundo poder ser explicado pelas narrativas longas da Idade Moderna –entre elas, o Materialismo Histórico de Marx e o projeto Iluminista, com sua premissa de que a razão instrumental garantiria o desenvolvimento humano.
     A consciência pós-moderna, termo empregado por Bauman, liquefez os sólidos valores da Modernidade, transformando-os em conceitos líquidos, com definições arbitrárias sobre o que é a moral. O senso comum defende que a finalidade suprema da vida é garantir a felicidade a qualquer custo. E nessa busca incessante por felicidade individual, as relações humanas se assemelharam ao consumo de bens materiais, adquirindo aspectos descartáveis. 
       A única lei que sobreviveu à consciência pós-moderna é a lei de mercado. Nessa perspectiva, não há mais por que duas pessoas manterem qualquer tipo de relacionamento, seja uma amizade ou uma relação amorosa, a não ser pelo motivo óbvio: que ele seja lucrativo para ambas as partes. Você está percebendo que seu amigo, de certa forma, não lhe acrescenta mais benefícios? Afaste-se dele. Seu cônjuge passou a ser um empecilho à sua felicidade plena? Peça a separação.
       Nunca houve tantos divórcios como há atualmente. Perdemos a capacidade de nos sacrificar em prol de valores maiores, como a família. Será mesmo que estamos mais satisfeitos vivendo como se o único sentido da vida fosse a busca incessante por felicidade, às custas de as relações humanas tornarem-se descartáveis? Não seria isso um retrocesso?

Mauro César Barbosa Júnior
RM 80968

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